Para muitas pais, o momento em que o filho começa a aprender a ler e a escrever é vivido com entusiasmo… mas também com alguma ansiedade. E quando surgem dificuldades, a dúvida instala-se: será normal ou será algo mais?
A dislexia continua a ser um tema rodeado de mitos e inseguranças. Importa, por isso, começar pelo essencial: a dislexia não está associada a falta de inteligência, não resulta de lesões cerebrais, nem do contacto com diferentes línguas ou dialetos.
A dislexia é, acima de tudo, uma dificuldade no processamento da informação fonológica — ou seja, na forma como o cérebro identifica, organiza e utiliza os sons da linguagem.
Em termos simples, falamos de crianças que podem ter dificuldade em reconhecer, discriminar e manipular os sons das palavras. E como a leitura e a escrita dependem diretamente desta capacidade, é natural que surjam dificuldades nesses domínios.
Mas a dislexia não começa na escola. A base de tudo está muito antes disso.
Desde os primeiros meses de vida, a criança começa a desenvolver linguagem. É através da comunicação, da escuta, da repetição e da interação que constrói as bases que mais tarde vão permitir ler e escrever. A leitura e a escrita são, na verdade, uma continuação da linguagem oral.
Por isso, muitas vezes, os primeiros sinais já estão presentes antes da entrada no 1.º ciclo — embora só se tornem mais evidentes quando surgem as exigências formais da aprendizagem. Por exemplo, uma criança que diz a mesma palavra de formas muito diferentes — “figorífico”, “friborítico”, “frigotítico” — pode estar a mostrar que o seu sistema fonológico ainda não está consolidado. E isso pode, mais tarde, refletir-se na leitura e na escrita.
Nestes casos, é importante que pais e educadores não ignorem os sinais. Pelo contrário, devem reforçar a forma correta das palavras, dividir em sílabas, repetir, modelar… e, acima de tudo, dar à criança oportunidades de ouvir e produzir a linguagem de forma clara e estruturada.
O período pré-escolar é uma fase chave. É aqui que se desenvolve a chamada literacia emergente — o contacto inicial com livros, histórias, letras, sons e escrita. E quanto mais rica for essa experiência, mais preparada estará a criança para as aprendizagens formais.
Criar um ambiente estimulante faz toda a diferença: livros acessíveis, histórias contadas diariamente, papel, lápis, tesouras, jogos de palavras, músicas, rimas… Tudo isto contribui para o desenvolvimento da linguagem, da memória auditiva e da consciência dos sons.
E não é preciso complicar. Conversar, brincar, cantar, ler — são estas as bases. Um dos maiores desafios neste processo é o tempo.
Muitas vezes, os sinais são desvalorizados numa fase inicial. Alguns pais entram, naturalmente, em negação, esperando que “passe com o tempo”. No entanto, esse tempo pode significar a perda de uma janela importante de intervenção. E quando a dificuldade não é compreendida nem acompanhada, o impacto vai além da aprendizagem.
A criança começa a sentir frustração, insegurança, desmotivação. O insucesso repetido pode afetar a autoestima e a forma como se vê enquanto aprendiz — e isso pode acompanhá-la durante anos. Por isso, a intervenção é importante. Mas a prevenção é ainda mais.
Já no 1.º ciclo, existem sinais que devem estar sob atenção: dificuldade em memorizar letras e sons, leitura lenta ou com muitas trocas, omissões, dificuldade em compreender o que lê, problemas na escrita de textos organizados ou na identificação dos próprios erros.
Mas é fundamental dizer isto os pais: nem tudo são dificuldades.
O cérebro das crianças com dislexia funciona de forma diferente — e isso traz também potencialidades únicas. São frequentemente crianças mais criativas, intuitivas, com forte pensamento visual e grande capacidade de observação.
E é precisamente aí que está a chave.
Valorizar aquilo em que a criança é boa, reforçar as suas competências e, ao mesmo tempo, apoiar as áreas mais desafiantes.
Porque aprender não tem de ser um sofrimento.