Por: Dr.ª Gabriela Lopes, psicóloga na clínica de psicologia O Teu Lugar
O diálogo sobre vários assuntos ligados à saúde mental tem sido crescente, e atualmente, quase toda a gente acaba por saber do que se trata e por ter uma opinião sobre o que é, a sua importância e a relevância de assinalar alguns dias específicos a este propósito.
Na verdade, valoriza-se cada vez mais a saúde mental porque se compreende que é uma ponte para tudo o resto. É sabido que, estando a saúde mental fragilizada/debilitada, há outras partes da vida que podem estar, como consequência, afetadas. Não há saúde sem saúde mental.
Seja em que idade for, a saúde mental é um dos motores que move a nossa existência.
Nas crianças e nos adolescentes, a presença ou ausência de saúde mental manifesta-se de formas muito diferentes em relação ao que acontece com os adultos.
Saúde mental não é apenas ausência de doença, mas sim “um estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza as suas capacidades, consegue lidar com o stress normal da vida, trabalha de forma produtiva e contribui para a sua comunidade” (OMS).
A infância e a adolescência são fases críticas para a saúde mental. É a altura primordial em que o cérebro se desenvolve e cresce rapidamente, e onde vão ser adquiridas competências cognitivas, emocionais e sociais que podem ter impacto na sua saúde mental no futuro, isto é, que serão importantes para aquilo que acontecerá na sua vida adulta. Efetivamente, a qualidade do ambiente em que as crianças e os adolescentes crescem molda o seu bem-estar e desenvolvimento, e as experiências negativas na infância aumentam o risco de doenças mentais (OMS).
Nestas idades, é importantíssimo existir uma prevenção e/ou uma intervenção precoce associada à saúde mental. O trabalho de promoção do bem-estar emocional começa, normalmente, onde as crianças e os adolescentes passam mais tempo – na escola, com os seus pares.
A promoção do bem-estar mental nas escolas e a prevenção de riscos têm sido evidenciados como um caminho necessário. Felizmente, verifica-se um aumento de programas que abordam a importância da saúde mental e previnem situações especificas, como o bullying, a discriminação, o isolamento social, entre outros, ajudando a comunidade escolar a perceber os impactos que isto pode ter e a prevenir e/ou intervir precocemente. De facto, conhecimento é poder. Estar informado do que se deve fazer em cada situação evita repercussões em idades mais avançadas.
É importante conhecer as crianças, compreender o que se passa na sua vida e na sua cabeça, saber quais são as suas dificuldades, quais os seus pensamentos e sentimentos, conhecer o seu grupo de pares e os vários contextos em que estão inseridas. Muitas vezes, esta fase é marcada por algum isolamento por parte da criança/adolescente, que se retrai e sente pouco compreendido, e quando não conseguimos aceder ao que a criança está a passar (o que passa, muitas vezes, por não saber sequer que tem um problema), dificilmente saberemos como podemos ajudar.
O que vemos nas notícias ou nas séries da Netflix serve para alertar para a importância do conhecimento e do envolvimento na vida das crianças e adolescentes, e para o que pode acontecer – no fundo, para termos mais informação que nos permita identificar os perigos. A estatística não serve só para assustar, mas também para estarmos alerta, para atuarmos, e para fazermos algo para mudar a estrutura em que a criança está integrada e, consequentemente, evitar o desenvolvimento de problemas de saúde mental.
Alguns dados relevantes
Segundo dados da Fundação Calouste Gulbenkian, metade das perturbações mentais nos adultos têm início antes dos 14 anos de vida. Em Portugal, em 2021, 20% dos jovens, entre os 10 e os 19 anos, sofriam de algum tipo de perturbação mental. Atualmente quase 31% dos jovens têm sintomas depressivos, a maioria moderados ou graves (OMS).
Em todo o mundo, a depressão é uma das principais causas de doença e incapacidade entre os adolescentes. Mundialmente, 8% das crianças e 15% dos adolescentes têm uma perturbação mental, mas a maioria não procura nem recebe ajuda. O suicídio é a terceira principal causa de morte entre os 15 e os 29 anos (OMS).
Os pais, a comunidade escolar, e qualquer cuidador, devem estar atentos a alguns fatores de risco e sinais de alerta que permitem reconhecer quando intervir e quando existe necessidade de apoio psicológico, prevenindo o aparecimento/agravamento de doenças mentais. A intervenção precoce é fundamental, pois muitos problemas mentais em adultos iniciam-se na infância ou adolescência.
Exemplos de fatores de risco
- Bullying/cyberbullying
- Exclusão social
- Violência (física, mental e/ou emocional) e negligência
- Consumo de substâncias
- Baixo nível socioeconómico
- Ambiente familiar disfuncional (instável, conflituoso, estilos parentais desadequados)
- Uso excessivo de redes sociais/jogos
- Pressão social
- Baixa autoestima
- Dificuldades de aprendizagem
- Problemas de regulação emocional
- Histórico familiar de doenças mentais
- Eventos de vida stressantes (perda de um ente querido, situações traumáticas)
Alguns sinais de alerta nas crianças e adolescentes que podem indicar necessidade de acompanhamento profissional:
- Alterações emocionais (tristeza persistente, ansiedade intensa ou irritabilidade frequente)
- Mudanças comportamentais (agressividade, comportamentos desafiadores)
- Queda do rendimento escolar
- Recusa escolar
- Queixas físicas frequentes sem causa aparente
- Dificuldades de concentração, atenção ou memória
- Mudanças no apetite/peso e nos padrões de sono
- Isolamento social
- Perda de interesse por atividades anteriormente significativas
- Sentimentos de desesperança, culpa ou inutilidade
- Comportamentos de risco (autodestrutivos ou pensamentos suicidas)
Fatores que potenciam a saúde mental
Tal como existem fatores que podem comprometer o bem-estar psicológico, há também elementos que favorecem a saúde mental e reduzem o risco de perturbações mentais. Estes fatores protetores contribuem para o equilíbrio emocional, a resiliência e a qualidade de vida. Alguns deles são:
- Rede de apoio social, familiar e escolar: relações positivas e estáveis com familiares, amigos e colegas proporcionam suporte emocional e fortalecem o sentimento de pertença
- Atividade física regular: o exercício promove a libertação de neurotransmissores associados ao bem-estar, reduzindo sintomas de ansiedade e depressão
- Alimentação equilibrada: uma dieta saudável e variada contribui para o funcionamento adequado do cérebro e para o equilíbrio emocional
- Sono adequado: um descanso de qualidade é indispensável ao bom funcionamento cognitivo, emocional e físico
- Competências emocionais (expressar e lidar com emoções)
- Autocuidado: dedicar tempo a atividades prazerosas, como hobbies ou momentos de lazer, é essencial para o bem-estar individual
- Acesso a cuidados de saúde e educação para a saúde mental
- Autoestima e resiliência
- Apoio profissional: procurar ajuda junto de psicólogos, psiquiatras ou outros profissionais de saúde mental é um passo fundamental para a prevenção e o tratamento eficaz de perturbações mentais.
É crucial protegermos e promovermos a saúde mental das crianças e dos adolescentes, seja através do ensino de estratégias e ferramentais pessoais, seja através da criação de um ambiente estruturado e uma rede de apoio familiar saudável e estável, ou através de medidas preventivas na escola. O futuro depende delas e da sua saúde mental. Investir no presente é criar condições para construir um futuro melhor.
Autora: Dr.ª Gabriela Lopes, psicóloga na clínica de psicologia O Teu Lugar
Biografia
- https://gulbenkian.pt/acesso-a-cuidados/saude-mental-infantil
- https://www.institutocriap.com/blog/psicologia/dia-mundial-saude-mental
- https://www.cuf.pt/mais-saude/saude-mental-infantil-sinais-de-alerta-e-quando-intervir
- https://www.paho.org/pt/topicos/saude-mental-dos-adolescentes
- https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/adolescent-mental-health